Quinta-feira

Sentir, perceber, ouvir,
os teus gestos medidos,
as tuas mãos, borboletas de seda,
fazem palácios feitos de palavras,
e a tua voz que sussurra,
palavras sem espaço para serem ditas.

O teu espaço, vedado, fechado,
o meu coração, arrebatado,
pelo que vi nos teus olhos,
tão longe, mais longe que o horizonte
e tão perto que te cheiro o olhar.

Nada, não é nada, não és nada,
apenas o terror absoluto que sejas
alguma coisa...

Sexta-feira

Na inocência que partilhas, perdes a tranquilidade, no carinho que dás, cedes o que não tens, no coração vazio, quieto e silencioso, que abriga sombras e medos, cresce a dor. O sorriso, esse, perde-se, e as lágrimas voltam, foges, para longe de ti, para não sentires, apenas para voltares a esquecer, para distanciares o corpo do calor, da sede, negas tudo, esmagas os tenros rebentos, tímidos e frágeis da humanidade que insiste em crescer, permanecer, que somente quer acordar-te para a uma realidade que não conheces, aquela onde o calor do abraço e a gentileza de um toque ainda existem...

E as palavras tombam como o vestido rasgado pelas mãos do amante, o silêncio apaga a luz, pois não suportas a claridade, voltas a vestir os farrapos, porque temes a tua nudez, ainda trémula, filha de uma sobrevivência feita de enganos...

Pintar, escolher as cores, será vermelho?
apenas verde-água...ou azul?
o esboço de uma vida mal acabada,
ou ainda por começar?

Moldura de madeira antiga?
refinada e sofisticada...
Apenas um fio e um prego.
Metal e Vidro, que arrepio!

Traço de carvão, preto e branco,
suave e grosso, carícia no papel,
fino e preciso, arranhão, dor
Abstrato? Impressionista?
Ou retrato?

Dedos soltos e sem vontade,
Papel solto ao vento,
Passáro livre, gaiola no chão
uivo de lobo, guincho de águia,
Copo meio cheio... ou será meio vazio?

Terça-feira


Dizê-lo é como se fosse vida que escapasse de mim, a força que desmaia quando a maré leva o barco, para longe. Consigo, agora, olhar em frente para o espelho da realidade mentida, ilusão ou sonho, reflexo trémulo na superficie das minhas lágrimas. Mas só ao dizê-lo, consigo saber o quanto, o tanto, eu te amo, subtil, profunda e verdadeiramente.

Como se o teu folêgo fosse a minha atmosfera, as tuas mãos, a minha gravidade e o teu corpo, satélite perpétuo na minha órbita. És tu que levas o meu coração, deixando-me sem alma, sem cor, sem mais beijos para dar, emoção espartilhada, não partilhada, e assim fico, a olhar em frente, para mim, e nos meus olhos, vejo a noite negra dos teus.

Segunda-feira


Entre a lama da cobardia e os dejectos de indiferença,
consigo apanhar pequenos cacos de mim,
antes translúcidos, agora baços e polidos,
pela corrente de tristezas que foi passando por mim.

Arranho-me, corto-me, passo eternidades de joelhos,
catando cada pedacinho, pois sem me encontrar,
não existo, não respiro, não sinto, não amo....
E quero, quero voltar a ter o vento nos cabelos.

Vou ter que reconstruir-me, devagar,
encaixar cada sentimento, limpo e lapidado,
pacientemente, com tempo, vou precisar de tempo.
Apenas e somente tempo... tenho que roubar o tempo que perdi.

Quando terminar, quero ter coragem de ver
a minha alma remendada
e fazer um vestido novo para sair à rua.

Domingo


Balançar entre a linha do equilibrio,
do que sou, do que sei,
aquilo que tenho que ser,
e tudo o que tenho que aprender.
Procurar nas entranhas do futuro,
aquilo que queres de mim, hoje!
No esforço de alcançar-te, resta tão pouco de mim,
diluída na rotina, na tristeza do que tem que ser,
na apatia crescente, na dor que cresce,
pois, por amares-me tanto, há muito que me deixaste de ver,
a mim, sozinha, deitada a teu lado....

Segunda-feira


Abandono-me à tristeza,

sem rumo ou norte,

abandono-me à melancolia,

sem medo ou lágrimas,

abandono-me ao vazio,

de olhos fechados, resignado.



Amar-te foi o melhor erro que fiz,

e por isso, abandono-me ao espaço

que deixaste ficar, solto ao vento, na minha vida.


É na noite sem estrelas dos teus olhos,
que me perco e encanto, deslumbro-me
na escuridão acolhedora e quente,
do teu olhar esfomeado, sedento...

É nessa noite em que me deito,
em que a luz nasce com um beijo,
e as estrelas explodem ao toque
é assim que te vejo, é assim que te sinto

No lago negro, sem fundo, de um olhar
Que esconde, que omite, que foge...

Quarta-feira

tu...



Dizer-te que te quero ter, não sei,
dizer que que te quero perder, tenho a certeza que não,
saber se quero que fiques ao meu lado, acho que sim,
se ficas dormir na minha cama, não sei,
ver-te sorrir, sempre, ver a chuva nos teus olhos, quando for preciso,
permanecer a teu lado, talvez, ter medo e ir embora, quase de certeza,

Quero tempo para te desmontar, estudar, identificar cada centimentro de ti.
Quero que tenhas tempo para mim, sejas oceano em fúria
ou brisa de verão, o que quero... não sei, mas sei o que não quero.

Perder-te sem te ter encontrado!

Sábado


O ar que respiras pesa-te, estala-te o peito, é a solidão que chega, outra vez, cresce-te a agonia, a dor rasgada, dentro, bem dentro do teu coração.. Sabes, sabes bem o que vem a seguir, a exaustão, a fadiga, os pensamentos que se enrolam, sem nexo aparente, que te mostram o caminho, o trilho,a velha estrada, onde tantas, tantas vezes,e stiveste parada, de braços caídos, perguntando vezes sem conta, se seria melhor ir por ali...


Mergulhas, despida de piedade ou revolta, nas águas que te afogam o grito, e deixas que a sonolência do teu sangue, te embale e te deixe dormir, te faça esquecer, as chicotadas de solidão, que te cortam a alma, cada vez que levantas a cabeça, cada vez que pensas que está tudo bem, cada vez que pensas que conseguiste...


E afinal, nada mudou, imaginaste flores na charneca, inventaste bosques no deserto, canto de passáros no silêncio, naquele silêncio, que tão bem conheces, e que um dia, talvez um dia, faças dele a tua voz!