segunda-feira


Entre a lama da cobardia e os dejectos de indiferença,
consigo apanhar pequenos cacos de mim,
antes translúcidos, agora baços e polidos,
pela corrente de tristezas que foi passando por mim.

Arranho-me, corto-me, passo eternidades de joelhos,
catando cada pedacinho, pois sem me encontrar,
não existo, não respiro, não sinto, não amo....
E quero, quero voltar a ter o vento nos cabelos.

Vou ter que reconstruir-me, devagar,
encaixar cada sentimento, limpo e lapidado,
pacientemente, com tempo, vou precisar de tempo.
Apenas e somente tempo... tenho que roubar o tempo que perdi.

Quando terminar, quero ter coragem de ver
a minha alma remendada
e fazer um vestido novo para sair à rua.

domingo


Balançar entre a linha do equilibrio,
do que sou, do que sei,
aquilo que tenho que ser,
e tudo o que tenho que aprender.
Procurar nas entranhas do futuro,
aquilo que queres de mim, hoje!
No esforço de alcançar-te, resta tão pouco de mim,
diluída na rotina, na tristeza do que tem que ser,
na apatia crescente, na dor que cresce,
pois, por amares-me tanto, há muito que me deixaste de ver,
a mim, sozinha, deitada a teu lado....

segunda-feira


Abandono-me à tristeza,

sem rumo ou norte,

abandono-me à melancolia,

sem medo ou lágrimas,

abandono-me ao vazio,

de olhos fechados, resignado.



Amar-te foi o melhor erro que fiz,

e por isso, abandono-me ao espaço

que deixaste ficar, solto ao vento, na minha vida.


É na noite sem estrelas dos teus olhos,
que me perco e encanto, deslumbro-me
na escuridão acolhedora e quente,
do teu olhar esfomeado, sedento...

É nessa noite em que me deito,
em que a luz nasce com um beijo,
e as estrelas explodem ao toque
é assim que te vejo, é assim que te sinto

No lago negro, sem fundo, de um olhar
Que esconde, que omite, que foge...

quarta-feira

tu...



Dizer-te que te quero ter, não sei,
dizer que que te quero perder, tenho a certeza que não,
saber se quero que fiques ao meu lado, acho que sim,
se ficas dormir na minha cama, não sei,
ver-te sorrir, sempre, ver a chuva nos teus olhos, quando for preciso,
permanecer a teu lado, talvez, ter medo e ir embora, quase de certeza,

Quero tempo para te desmontar, estudar, identificar cada centimentro de ti.
Quero que tenhas tempo para mim, sejas oceano em fúria
ou brisa de verão, o que quero... não sei, mas sei o que não quero.

Perder-te sem te ter encontrado!

sábado


O ar que respiras pesa-te, estala-te o peito, é a solidão que chega, outra vez, cresce-te a agonia, a dor rasgada, dentro, bem dentro do teu coração.. Sabes, sabes bem o que vem a seguir, a exaustão, a fadiga, os pensamentos que se enrolam, sem nexo aparente, que te mostram o caminho, o trilho,a velha estrada, onde tantas, tantas vezes,e stiveste parada, de braços caídos, perguntando vezes sem conta, se seria melhor ir por ali...


Mergulhas, despida de piedade ou revolta, nas águas que te afogam o grito, e deixas que a sonolência do teu sangue, te embale e te deixe dormir, te faça esquecer, as chicotadas de solidão, que te cortam a alma, cada vez que levantas a cabeça, cada vez que pensas que está tudo bem, cada vez que pensas que conseguiste...


E afinal, nada mudou, imaginaste flores na charneca, inventaste bosques no deserto, canto de passáros no silêncio, naquele silêncio, que tão bem conheces, e que um dia, talvez um dia, faças dele a tua voz!

terça-feira

...

As palavras nascem-me ásperas, sem candura ou meiguice, soam-me rudes, como dialectos antigos. Perderam o seu delicado madrepérola, assumindo-se graníticas e opacas, impossíveis de esculpir pela prosa ou verso.

Caem as sílabas em derrocada, corroídas pelas nascentes que rompem o meu coração. As palavras, as minhas palavras, são grotescas, mal acabadas, moldes de gesso disformes, sem arte ou engenho, que articulam, em gritos mudos, a dor que ainda não despi, a tristeza que ainda não passou, o vazio, que cada folêgo, alarga dentro do peito. As palavras morreram, diminuídas e apagadas, sem sol ou esperança.

Assim, deixo-me estar, deixo-me ir, até que a vontade chegue, até o amanhã surgir, no meu horizonte imaginário.

Mais um escrito do meu alter-ego....


Não estou cansado de ser eu, por vaidade ou desistência, apenas porque tenho que viver comigo e cansa-me ser o que sou, um rochedo encravado nas marés das vidas, que vão e vêm, com a vã escolha de permanecer EU ou desfazer-me para sempre, na espuma do mar...


Por "Eu Mesmo"

sexta-feira


Se assim escrevo, esborrantando as palavras a vermelho, é para que se veja nelas a cor pulsante das palavras vivas, soltas e não esquecidas.

Podiam ser negras ou verdes, amarelas vibrantes como o sol ou como o azul profundo dos teus olhos...

Mas não, escrevo-as a vermelho, sem bandeira politica, sem religião, sem regras, sem pudores, escrevo-as assim, a vermelho, como o sangue que me habita, como a raiva que me cega, como a paixão que me consome.

Por "Eu Mesmo"

terça-feira


Já houve quem soubesse a linguagem das àrvores e o que o vento dizia. Esses, que se perderam entre as madrugadas dos mundos, falavam do tempo entre os tempos, o instante em que a luz do dia se dilui nas sombras que antecedem a noite.

Esse tempo, em que já não era dia e ainda não era noite, seria a hora, o momento, em que tudo seria possível. Assim sendo, será no tempo entre os tempos, que vou soltar as ideias, largar as palavras, que não ouso dizer de dia e que à noite, apenas as sonho, para as esquecer, com as primeiras claridades da madrugada que vai empurrando o manto das estrelas.